I
O mundo meu é pequeno, Senhor.Tem um rio e um pouco de árvores.Nossa casa foi feita de costas para o rio.Formigas recortam roseiras da avó.Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, osbesouros pensam que estão no incêndio.Quando o rio está começando um peixe,Ele me coisa,Ele me rã,Ele me árvore.De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.
II
Conheço de palma os dementes de rio.Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzamae de Rogaciano.Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar no horizonte.Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas de Corumbá.Me disse que as coisas que não existem são mais bonitas.
VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.Ele fez um limpamento em meus receios.O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...E se riu.Você não é de bugre? - ele continuou.Que sim, eu respondi.Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.Há que apenas saber errar bem o seu idioma.Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de gramática.
VI
Toda vez que encontro uma parede ela me entrega às suas lesmas.Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?Parece que lesma só é uma divulgação de mim.Penso que dentro de minha casca não tem um bicho:Tem um silêncio feroz.Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.
(Manoel de Barros)

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