4 de maio de 2007

O mundo que anda hostil

Levantou-se e encaminhou-se para o quarto, batendo a porta atrás de si. "Pareço-me com eles",disse,furiosa. Homenzinhos. Vidinhas. Por que não fiquei na cama? Por que tive medo? Serei tão covarde? Ele anda pelas ruas, tão modesto, com seu chapéu de feltro e sua capa de gabardine e pensa: "Sou imortal". O mundo pertence-lhe e eu não passo de um mosquito.Tocou com a ponta dos dedos os narcisos pousados em cima da mesa.E se eu também acreditasse: sou imortal. O perfume dos narcisos é imortal, e também essa febre que incha meus lábios. Sou imortal. Amarfanhou os narcisos entre as mãos. Era inútil. A morte estava nela, e ela o sabia e já a acolhia. Ser bela dez anos ainda, representar Fedra e Cléopatra, deixar no coração dos homens mortais uma pálida lembrança que se faria poeira aos poucos, pudera contentar-se com essas modestas ambições. Tirou os grampos que lhe seguravam os cabelos e as pesadas mechas caíram-lhe sobre os ombros. Um dia serei velha, um dia morrerei, um dia serei esquecida. E enquanto penso isso, há um homem que pensa: "Estarei sempre aqui".

(Simone de Beauvoir-Todos os homens são mortais)

Lendo o livro, lembrei de uma frase que escutei há pouco tempo, numa entrevista com o antropólogo Roberto da Matta, e comecei a fazer relações com os assuntos da narrativa do livro:
"Nós repetimos determinados dramas que fazem parte da nossa identidade".

Esse livro me fez pensar bastante...É realmente um livro pesado, mas que vale a pena ler, por ser bem próximo da nossa realidade.



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