15 de março de 2008
Um dia ou uma noite - entre meus dias e minhas noites
que diferença existe? - sonhei que no chão do cárcere
havia um grão de areia. Voltei a dormir, indiferente;
sonhei que despertava e que havia dois grãos de areia.
Voltei a dormir, sonhei que os grãos de areia eram três.
Foram, assim, multiplicando-se até encher o cárcere e eu
morria sob este hemisfério de areia. Compreendi que
estava sonhando; com um enorme esforço, despertei.
O despertar foi inútil: a inumerável areia me sufocava.
Alguém me disse: "Não despertaste para a vigília, mas
para um sonho anterior. Esse sonho está dentro de
outro, e assim até o infinito, que é o número dos grãos
de areia. O caminho que terás que desandar é
interminável e morrerás antes de haver despertado
realmente".
Senti-me perdido. A areia me enchia a boca, mas grite:
"Nenhuma areia sonhada pode matar-me nem existem
sonhos dentro de sonhos". Um resplendor me despertou.
Na treva superior abria-se um círculo de luz. Via a face e
as mãos do carcereiro, a roldana, o cordel, a carne e os
cântaros.
Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de
seu destino; um homem é, afinal, suas circunstâncias.
mais que um decifrador ou um vingador, mais que um
sacerdote do deus, eu era um encarcerado. Do
incansável labirinto de sonhos regressei à dura prisão
como à minha casa.
Bendisse sua umidade, bendisse seu tigre, bendisse meu
velho corpo dolorido, bendisse a treva e a pedra.
Então ocorreu o que não posso esquecer nem comunicar.
Ocorreu a união com a divindade, com o universo (não
sei se estas palavras diferem). O êxtase não repete seus
símbolos; há quem tenha visto Deus num resplendor, há
quem o tenha percebido numa espada ou nos círculos de
uma rosa. Eu vi uma Roda altíssima, que não estava
diante de meus olhos, nem atrás, nem nos lados, mas
em todas as partes, a um só tempo. Essa Roda estava
feita de água, mas era também de fogo, e era (embora
visse a borda) infinita. Entretecidas, formavam-na todas
as coisas que serão, que são e que foram, e eu era um
dos fios dessa trama total, e Pedro de Alvarado, que me
atormentou, era outro.
Trecho do conto "A escrita do Deus" de Jorge Luís Borges
http://virtualbooks.terra.com.br/freebook/traduzidos/a_escrita_de_Deus.htm
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2 comentários:
já tava na hora de atualizar, né?!
Beijos
=*
É. Desempregado tem tempo, muito tempo livre!
Abraços
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