18 de maio de 2008

Resíduo

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,

De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.

(Drummond)

Um comentário:

minimal cel disse...

"este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
(...)"

cadê os meus cacos?
que beleza a esperança, não?
quantas horas custam mil esperanças?

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